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27.jan.2025
Primeiro Copom sob comando de Galípolo deve seguir ‘script’ e elevar Selic a 13,25%

Primeiro Copom sob comando de Galípolo deve seguir ‘script’ e elevar Selic a 13,25% | Finanças | Valor Econômico

Pesquisa aponta unanimidade de 120 casas na alta de 1 ponto percentual; para fim de 2025, mediana das projeções está em 15%, acima dos 14,25% já indicados pelo BC

Por Gabriel Roca, Gabriel Caldeira e Victor Rezende — De São Paulo

No primeiro encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) na gestão do novo presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, o colegiado deve seguir a orientação dada na reunião anterior e elevar a Selic em 1 ponto, para 13,25%. Sobre os passos que a autoridade monetária dará depois de março há menos clareza, mas a leitura majoritária no mercado é que o ciclo de aperto deve se estender à faixa dos 15%, bem acima dos 14,25% indicados atualmente pelo BC.

Em pesquisa realizada pelo Valor com 120 instituições, todas esperam que o Banco Central eleve a taxa básica de juros em 1 ponto percentual na reunião desta quarta-feira. Já a mediana das respostas para a taxa de juros no fim de 2025 está em 15%, ou seja, 0,75 ponto acima dos 14,25% já “contratados” pela orientação futura do Copom emitida em dezembro.

As projeções dos agentes de juros mais elevados se dão em um momento de piora tanto na inflação corrente quanto nas expectativas. Para além da surpresa de alta no IPCA-15 divulgado na sexta-feira, no Copom anterior a mediana do Focus apontava para uma inflação de 4,6% no fim de 2025, contra 5,08% do boletim da semana passada. A pesquisa do Valor, no entanto, capturou uma estimativa bem maior para a inflação de 2025, com a mediana alcançando os 5,40%, em um sinal de que a desancoragem nas expectativas deve prosseguir.

Apenas 13 das 120 casas esperam que a Selic termine o ano abaixo de 14,25%, o que indica que a grande maioria do mercado vê pouco espaço para um afrouxamento monetário neste ano.

Se a decisão de quarta-feira e da reunião de março já parecem bem endereçadas pela orientação futura emitida pelo Copom em dezembro, as decisões seguintes seguem menos claras. Na visão do economista-chefe do UBS BB, Alexandre de Ázara, a barra para que o BC abandone a sua orientação de elevar a Selic em 1 ponto nas próximas duas reuniões é muito elevada. “A grande pergunta é se vai fazer mais do que os 14,25%. Visto de hoje, há uma grande possibilidade de precisar fazer mais. Mas isso não é uma coisa que o Copom precisa decidir agora – ele pode decidir isso apenas no dia 7 de maio”, diz.

Decidir mais tarde, inclusive, é exatamente o que o colegiado deveria fazer, na visão de Ázara. “Ele vai ter tempo de entender tudo o que o [presidente dos EUA, Donald] Trump quer fazer de fato”.

O economista lembra que o próprio BC avalia que o ritmo de 0,5 ponto é aquele considerado “normal” em ciclos monetários. “Em maio, vejo três decisões como mais prováveis. Caso as coisas melhorem muito, ele poderia encerrar o ciclo. Por outro lado, se as variáveis voltarem a piorar na velocidade que vimos, outra alta de 1 ponto deve ser dada. E caberia mais 0,5 ponto, para fazer as projeções convergirem no modelo. Acredito que qualquer coisa entre 14,25% e 15% de terminal é possível. Mas a verdade é que ele não sabe nada disso hoje”, afirma.

Na avaliação do economista-chefe da Truxt Investimentos, Arthur Carvalho, o plano de voo traçado pelo BC é apropriado, dado o quadro inflacionário atual e a constante desancoragem das expectativas do mercado. “Vão manter o tom duro e deixar a porta aberta para fazer o que tiver que fazer nas próximas reuniões”, projeta. “O mercado até especulou quanto a uma alta ainda maior [da Selic] no auge da desvalorização do real, mas os diretores se mantiveram muito firmes na comunicação, o que parece bastante apropriado. O mercado exagerou mesmo”, diz.

Carvalho espera que o BC leve a Selic a 15,5%, sem cortes em 2025. “Temos visto os primeiros sinais de desaceleração. Daqui até o meio do ano isso ficará mais claro e talvez [a Selic] não precise ir muito além disso”, argumenta. De qualquer forma, ele afirma que o viés do seu cenário aponta para mais inflação e juros em meio às pressões nos alimentos e serviços. O economista também entende como passageiro o alívio recente na taxa de câmbio, após sinalizações mais brandas do presidente de Trump em relação às tarifas.

“A chance de o ambiente externo piorar é razoável, porque Trump está adiando o anúncio das tarifas, mas não voltando atrás”, diz Carvalho, que espera uma mudança significativa no comércio exterior, com possibilidade até de medidas específicas contra o Brasil.

O economista-chefe da Brasilprev, Robson Pereira, tampouco espera surpresas para a decisão desta quarta-feira. “Talvez o ponto mais relevante seja em relação à sinalização, no singular ou no plural, sobre as reuniões subsequentes. Em dezembro, o BC fez uma indicação para as próximas duas reuniões: janeiro e março. Se ele mantiver a sinalização para as próximas duas, falamos de março e maio, ou seja, a magnitude do ajuste em maio já estaria dada. Acredito que seja necessária uma atenção adicional à comunicação, mas não vemos uma mudança no tom de preocupação do BC com o cenário econômico.”

Assim, o tom do colegiado deve se manter cauteloso. “O mercado de trabalho segue aquecido; os dados de inflação de curto prazo ainda mostram uma abertura desafiadora; e há incertezas com a política econômica nos EUA e vários bancos centrais têm feito menção a isso. Acredito que o BC deve continuar com um tom de bastante preocupação em relação aos riscos inflacionários e destacar a deterioração das expectativas”, diz.

A Brasilprev espera que o Copom leve a Selic a 15% e corte os juros a partir de novembro, com a taxa encerrando 2025 em 13,5%, em um cenário condicional à continuidade da redução das taxas de juros nos Estados Unidos e a uma desaceleração da atividade econômica.

Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset no Brasil, espera que o colegiado reforce a piora para o cenário inflacionário. “O Copom tem de assumir que o cenário piorou, com uma inflação corrente muito alta, medidas de inércia ganhando tração e expectativas subindo bastante”, afirma.

Assim, a projeção da Western é de uma Selic de 15,25%, com duas altas de 0,5 ponto após a reunião de março. “Existe um aperto muito grande das condições financeiras, que deve desacelerar a economia e ajudar a trazer a inflação para baixo. Os riscos estão mais na percepção de piora fiscal e em um quadro externo mais complexo, que pode influenciar as projeções, já que a parte inercial da inflação vai estar muito alta e muito acima da meta.”

Para Lima, um afrouxamento da Selic só deve ocorrer a partir de 2026. “Só vemos cortes de juros no início do ano que vem, a não ser que tenhamos uma mudança de cenário que leve o câmbio a recuar rapidamente. Aí sim podemos antecipar os cortes para o quarto trimestre deste ano.”

29.nov.2024
Diversificação e análise macro na cesta de ações

Diversificação e análise macro na cesta de ações | Guia de Previdência Valor/FGV | Valor Econômico

Por Suzana Liskauskas — Para o Valor, do Rio

Apesar do cenário mais difícil para renda variável, algumas gestoras têm conseguido superar o Ibovespa

Os últimos três anos têm sido particularmente desafiadores para a gestão de fundos de ações, incluindo os fundos de previdência baseados nessas estratégias. Apesar do cenário mais difícil para renda variável, algumas gestoras têm mantido consistência nos resultados positivos em fundos previdenciários de ações, conseguindo superar o Ibovespa.

Por trás das estratégias com maior sucesso, há equipes que aprenderam a valorizar a análise macroeconômica para complementar o olhar mais focado nas empresas. Esses times de gestores também não abrem mão da diversificação e inovam no uso da inteligência de dados.

Com pouco mais de três anos, os fundos de previdência ações da Absolute têm se destacado por superar o Ibovespa, diz Tiago Sant’Anna, sócio fundador da empresa. Com estreia em maio de 2021, os fundos de previdência ações da Absolute replicam o mesmo racional dos fundos abertos da gestora para a categoria, que existem há seis anos.

Na estratégia de ações, a Absolute tem R$ 4 bilhões sob gestão, sendo R$ 210 milhões em fundos de previdência. Sant’Anna observa que, como os fundos de previdência replicam a estratégia dos fundos de ações regulados pela Resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os portfólios também são bem balanceados.

“No mundo de ações, fazemos portfólios bem equilibrados. Muitas vezes, os fundos de ações são uma coleção de boas ideias que acabam apresentando uma correlação muito alta e podem ter um retorno muito bom ou muito ruim. Temos conseguido navegar bem, sem depender de um único tema ou de um movimento único do mercado”, diz o sócio fundador da Absolute.

Na análise de Sant’Anna, o equilíbrio obtido pela gestão dos fundos de ações para previdência resulta da diversificação, do entendimento dos fatores de risco da carteira e da análise macroeconômica para validar as posições.

Análise macroeconômica também tem sido relevante para os resultados alcançados pelos fundos de previdência em ações da Truxt. Com aproximadamente R$ 220 milhões exclusivamente em fundos classificados com previdência ações, a Truxt atribui o desempenho positivo desses fundos à estratégia que foca em uma carteira de 15 a 25 empresas de diferentes setores. Para chegar a essa seleção, o time da companhia prioriza algumas características.

Arthur Carvalho, economista chefe da Truxt, diz que a preferência é por negócios com vantagens competitivas e que apresentem oportunidades de crescimento em setores com barreira de entrada. Outro ponto fundamental é a busca por valuations (processos para estimar o valor de uma empresa ou um ativo) atrativos e que incluam uma margem de segurança robusta, ressalta Carvalho.

A gestão da Truxt também foca em inovação. Segundo Carvalho, a gestora vem reforçando o investimento no uso de dados para enriquecer a análise. “Utilizar dados alternativos nos ajuda a ter um diferencial em nossas estratégias. Implementamos, ainda, mais automação nos processos internos, o que permite alocação de tempo mais eficiente para a equipe de gestão e fortalece a qualidade das decisões de investimento”, afirma.

Na Trígono Capital, as carteiras dos fundos de ações para previdência têm maior concentração de small caps. Esse grupo é formado por empresas com menor valor de mercado em comparação às companhias mais tradicionais da bolsa de valores. Werner Roger, sócio fundador e diretor de investimentos da gestora, observa que as small caps se destacaram na reta final de 2023, com o movimento de queda de juros.

Para Roger, as duas estratégias de fundos de investimentos em ações (FIAs) de previdência da Trígono têm se destacado pela composição da carteira, que, afirma, é diferenciada e com ativos de qualidade. “Vamos continuar focados em empresas que não estão tão expostas a juros, que possuem receita em moedas estrangeiras, garantindo uma proteção contra a volatilidade”, diz.

No total, as duas estratégias de FIAs em previdência da Trígono apresentam cerca de R$ 480 milhões sob gestão. “Uma delas é totalmente voltada para investimentos em renda variável. Na outra estratégia, o limite é de 70% em ações. Procuramos investir em empresas com uma situação financeira muito sólida, muito caixa e pouca dívida, que pagam bons dividendos”, detalha Roger.

Para a equipe da Trígono, essas empresas podem atravessar melhor o período de alta de juros. “Buscamos também empresas com boa parte das receitas em moedas estrangeiras. Se o real se desvaloriza, elas acabam beneficiadas pelo estresse de mercado, ganham no câmbio. Nos protegemos através desse posicionamento”, explica Roger.

12.nov.2024
ENTREVISTA: Com excessos no crédito, “pessoa física virou o novo BNDES”, diz Bruno Garcia, da Truxt

ENTREVISTA: Com excessos no crédito, “pessoa física virou o novo BNDES”, diz Bruno Garcia, da Truxt | Exame INSIGHT

Por Natalia Viri

Sócio de uma das maiores gestoras de ações do Brasil vê riscos para economia brasileira com isenção para títulos de dívida – com efeitos que vão muito além da distorção na Bolsa

“Como pode o credor de uma empresa estar no céu e o acionista no inferno?”. A pergunta de Bruno Garcia, CIO da Truxt, resume bem a atual situação do mercado de capitais no Brasil.

Com trilhões entrando na renda fixa enquanto o mercado acionário vê uma sangria, as mesmas empresas que captam a taxas muito baratas no mercado de renda fixa são aquelas que negociam com os maiores descontos em Bolsa.

É certamente um desafio para as gestoras de ações, como a própria Truxt que tem cerca de R$ 5 bilhões em fundos de renda variável.

Com o cenário mais desafiador, a gestora está lançando um novo fundo, focado nas “bond proxies”: ações com retornos previsíveis e bom potencial de crescimento para para arbitrar uma das principais oportunidades da Bolsa atender a necessidade de clientes que buscam um perfil de renda variável mais defensivo e correlacionado aos juros reais (saiba mais aqui).

Mas as distorções vão muito além da Bolsa. Em entrevista ao INSIGHT, Garcia defende que a isenção para títulos de dívida como CRA, CRIS, FIIS e debêntures de infraestrutura está tendo efeitos perversos em toda a economia.

“Hoje, quem está financiando as empresas no longo prazo e a taxas baratas é a Dona Maria, que busca renda garantida numa debênture de 20 anos. Será que ela sabe o que está comprando?”, questiona.

Na sua visão, o direcionamento de recursos da poupança para o mercado de crédito, especialmente isento, está provocando distorções na política monetária, na arrecadação e na composição do financiamento da dívida pública e privadas – com a pessoa física fazendo o papel que na época do governo Dilma, foi do BNDES.

“O novo BNDES é a pessoa física, a Dona Maria dando crédito barato demais e subsidiado pela isenção do governo para grandes empresas”, diz. “Quando metade do estoque de crédito está sendo dada a prazos longos e com um spread baixo, quanto é que você tem que subir a Selic para desaquecer a economia? No limite, você está diminuindo a potência e aumentando o lag da política monetária.”

Com os juros hoje precificando um cenário “entre o céu e o inferno”, Garcia defende que, em algum momento o spread dos créditos vai abrir – seja por um movimento de busca por mais risco, num cenário mais benéfico, ou de redução de risco, num cenário mais pessimista –, com o potencial de traumatizar uma série de poupadores, como aconteceu com o estouro da bolha do mercado acionário no pós-pandemia, em 2021.

A seguir, os principais trechos da conversa, condensados para melhor entendimento:

INSIGHT: Muitos dizem que o mercado de crédito está mal precificado. Mas fato é que as emissões continuam saindo, mesmo com as taxas bastante comprimidas, especialmente no mercado de high grade. O que está acontecendo?

Garcia: Estou começando a ver uma possível bolha se formando, tanto no nível dos spreads quando no montante emitido. Na questão dos spreads, a principal distorção é a evolução do spread ao longo dos ratings de crédito. As empresas historicamente mais arriscadas estão com um prêmio de risco muito baixo em relação as mais seguras.

E por quê? Antigamente, era o pessoal dos grandes bancos com décadas de experiência que se sentava num comitê de crédito e falava: vou dar dinheiro para essa empresa e definia a taxa, a garantia, porque ia encarteirar isso no book por cinco, de dez anos.

Agora, é o agente autônomo que vende para Dona Maria, que está em busca de busca renda garantida, uma debênture de 20 anos. Será que ela realmente sabe o que está comprando? Se esse título der default, quem vai negociar por ela? As experiências recentes de renegociações de títulos pulverizados numa base de varejo foram bem negativas.

O agente autônomo e os bancos ganham suas comissões de venda e estruturação na cabeça, independente do que venha a acontecer com o título no futuro. E essas comissões são maiores do que as ganhas para vender fundos de investimento.

Outro sinal de uma possível bolha está no montante emitido. O estoque de isentos cresceu R$ 1 trilhão em menos de cinco anos. É muita coisa! Hoje, o estoque de crédito financiado via mercado de capitais (isento e não isento) é mais de metade da poupança do brasileiro ou quase R$ 6 trilhões.

Além dos riscos para o investidor, isso é uma coisa que está afetando a política monetária. As empresas estão captando a 10 anos, com taxas baixas. Quanto é que o Banco Central tem que subir a Selic para desaquecer a economia para compensar esse fator?

No limite, você está diminuindo a potência e aumentando o lag da política monetária.O novo BNDES é a pessoa física, a Dona Maria dando crédito barato demais e subsidiado pela isenção do governo para grandes empresas.

Mas o acesso a crédito no Brasil sempre foi uma questão. Não dá para dizer que a entrada do mercado de capitais nessa concessão está cumprindo esse gap?

Recentemente, o [secretário de reformas econômicas do Ministério da Fazenda] Marcos Pinto trouxe um dado numa entrevista de que metade do crédito brasileiro está sendo dado pelo mercado de capitais, com um spread médio de 1,75%. A outra metade, que está na mão dos grandes bancos, está com spread médio de 8%.

A grande diferença é o mix, porque as PMEs não conseguem emitir debêntures, elas continuam nos bancos, que ficam com a parte mais arriscada e a taxas maiores.

Aumentar o crédito é bom. O grande problema é a distorção que você tem pela isenção. Se tudo isso tivesse acontecido sem a distorção, com os investidores sabendo o que estão comprando, legal.

Mas na prática são os bancos, as empresas do agro, construtoras, players de infraestrutura tomando dinheiro mais barato através de LCAs, LCIS, CRAs , CRIs, FIIs, etc. E hoje, boa parte dessas empresas não precisam mais desse benefício. Você está jogando gasolina numa fogueira que já pegou fogo e está criando uma série de situações na economia que podem acabar mal.

Quando houver qualquer problema de crédito no Brasil que faça esses spreads abrirem, os investidores podem ficar tão machucados que podemos estar acabando com uma geração de financiadores. Fechando, mesmo que momentaneamente, um importante canal de financiamento de projetos longo prazo.

Me parece uma reprise do que aconteceu no mercado de ações no pós pandemia, em 2021…

De fato, quem acabou se empolgando com os juros baixos no pós pandemia em 2021 e aumentou de forma importante a alocação em risco perdeu muito. Temos uma geração de tomadores de risco muito machucada. O mercado captou somente em fundo de ações R$ 160 bilhões entre 2017 e 2020 e perdeu de lá para cá R$ 140 bilhões, ou seja, quase tudo que captou.

O investidor não quer mais ouvir que a Bolsa está barata, que ele não quer tomar nenhum risco. Ele fala: 1% ao mês isento está de bom tamanho para mim, não quero mais do que isso, sem realmente entender que existe risco nesses investimentos.

Todo tipo de investidor? Mesmo o mais bem assessorado?

Todo mundo. Com o fim dos exclusivos, o investidor de alto patrimônio também foi em busca da isenção. Um pedaço pequeno dos recursos liberados dos exclusivos foi para fundos de previdência (num movimento que levou o governo a impedir a criação de novos fundos acima de R$ 5 milhões de reais) e um pedaço grande acabou indo para carteiras de isentos.

Diante a performance medíocre dos fundos de ações e multimercados no pós pandemia, o alocador precisa também apresentar alternativas para o cliente final, até como uma forma de mantê-lo na sua grade, o que pode ter acabado ajudando na migração para crédito.

Aqui vale uma observação. Quanto pior ficar o Brasil melhor é o benefício da isenção. Vamos imaginar um mundo hipotético aqui, só para estressar o argumento, em que a inflação vá para 30% ao ano. O papel paga inflação mais 6%, vai render 36%. Quanto é que vale 15% dos 36%? 4,8%. Se eu tirar o 4,8% que é o benefício, os juros reais recebidos ficam em somente 1,2%.

Como tributamos inflação, quanto maior a inflação, maior é o benefício das isentas. E numa situação de crise de credibilidade, de percepção de descontrole fiscal, de mudanças no Banco Central, as pessoas ficam com medo da inflação os isentos ficam mais atrativos.

E com isso as distorções só aumentam. O desconto na Bolsa talvez nem seja a mais complicada delas.

Quais as outras?Um outro efeito importante e no financiamento da dívida pública. O boom de isentos somado a relutância do Tesouro em endossar o aumento de juros no Brasil está mudando a composição da dívida brasileira.

A despeito de todo aumento da dívida ocorrido nos últimos anos, o montante de título pré-fixados e indexados à inflação que foi vendido desde 2022 foi abaixo do que venceu, ou seja, foi uma emissão líquida negativa de R$ 230 bilhões. É um crowding out reverso.

O investidor pessoa física não vai comprar uma NTN-B, uma LTN. Ele vai comprar um isento para não pagar imposto. Isso torna o perfil da dívida do brasil mais arriscado do que no passado recente. Quase metade das dívidas está sendo rolada a taxas pós fixadas em overnight ou em prazos curtos.

Outro efeito importante se dá na arrecadação. Vamos pegar um estoque de R$ 2 trilhões de incentivadas e botar um rendimento de 14%. Dá R$ 280 bilhões, 15% em cima disso seriam R$ 42 bi. Quanto é que o Lula precisa para reajustar as tabelas de imposto de renda? R$ 35 bi.Se acabar com o isento no Brasil, dá para fazer a principal promessa de campanha. E vale a pena ressaltar que o benefício da isenção está sendo dividido pelas pessoas físicas de alta renda e pelas maiores empresas do Brasil.

E até onde vai o mercado de incentivadas? Já houve nas últimas semanas algumas emissões que não saíram por conta dos prêmios baixos. Quando você acha que vem um ajuste maior nos spreads?

O ajuste pode vir pelo bem ou pelo mal. O que seria a via pelo mal? Suponha que chegamos em 2025 e o governo chute o pau da barraca no fiscal. Começa a gastar, não bota restrição nenhuma, começa a não respeitar as regras do arcabouço e gera a percepção de descontrole das variáveis nominais no Brasil.

O investidor pode decidir dolarizar um pedaço do seu patrimônio e pensa: vou vender 20% das minhas isentas. 20% de um estoque de R$ 2 tri é R$ 400 bilhões. O mercado negocia aproximadamente R$ 400 milhões por dia. Ou seja, o montante a ser vendido é 1000 vezes maior que a liquidez diária.

E quem vai comprar esses títulos nessa situação de stress? Os únicos que podem fazer frente a esse fluxo são os grandes bancos. Só que o spread requerido por eles vai ser muito acima do atual. Ele vai falar assim: “bom, mas essa empresa daqui eu financiaria a 200 bps”, quando a taxa atual é zero. E ajustando pela duration, que está cada vez mais longa, alguns títulos podem ter perdas de principal de até 20% ou 30%.

Outra possibilidade é um aumento de inadimplência. Olha os Fiagros. A vida toda quem emprestou para o agro foi o Banco do Brasil. Aí vem o pessoal da Faria Lima e começa a empacotar o Fiagro. Dizer que a safra deste ano está ruim é um exagero, né? Piorou um pouco, mas saiu do high ever para um pouquinho abaixo do high ever. E olha a quantidade de crédito ruim pipocando no agro.

Será que pode servir de gatilho para as pessoas podem começar a perceber que o risco de crédito está mal precificado?

Por fim também tem um caso bom: chega em 2026, uma chapa mais pró-mercado entra como favorita [na eleição]. As pessoas decidem que é hora de apostar no Brasil, de comprar multimercado, bolsa, coisa e tal. Pega um pouquinho do que está em crédito isento e põe em bolsa, multimercados, vamos dizer 20%. Não tem espaço. É um elefante na sala de cristal. Qualquer movimento e as coisas quebram.

A grande questão é que o Brasil é um tanto afeito à mediocridade: não ter nem um cenário horroroso, catastrófico, mas tampouco as coisas melhorarem demais. Não corremos o risco de ficar nesse meio do caminho?

Não, porque esses juros que estamos pagando hoje, de quase 7% real, é um juro que não equilibra o Brasil. É uma ponderação entre um juro mais alto de um país quebrado e um juro mais baixo de um país saudável. O 7% é a média ponderada do céu com o inferno.

Do ponto de vista dos investidores, para mim, a grande questão é que ele não está sendo compensado pelo risco que está correndo no crédito privado. Se for para tomar risco me parece melhor, comprar ações, multimercado. Se é para buscar proteção pode-se comprar ativos dolarizados e títulos federais curtos indexados à inflação. Títulos privados longos de devedores com risco mediano, e spreads baixos não me parecem nem de longe uma boa opção.

Eu, Bruno, sou a favor da diversificação. E dentre a diversificação priorizo os pesos num Barbell, ponderando ativos seguros, no qual tenha pouquíssima chance de perda de capital com ativos arriscados no qual consiga delimitar o montante que posso perder. Sempre busquei minimizar o risco alocado no “meio’. Isso é mais verdade que nunca agora.

Olhando para os descontos das empresas em Bolsa, claramente há uma arbitragem óbvia, especialmente em bond proxies, como empresas de energia, shoppings. Por que ninguém está arbitrando esse negócio?

De novo, a questão do fluxo. O primeiro fator é que 70% das ações do mundo estão nos Estados Unidos, onde é possível comprar as melhores ações do mundo em setores com vantagens sustentáveis e crescimento de longo prazo como Inteligência artificial, e-commerce, software EV, GLP-1 etc….. Tem muita história de crescimento nos mercados desenvolvidos.

O gringo não precisa vir mais para mercados emergentes para comprar crescimento. Na verdade, os emergentes vêm sendo um value trap. Nos últimos 20 anos, o índice de ações emergentes não sai do lugar.

E para piorar o investidor estrangeiro não gosta de apostas de carrego em ações de mercados emergentes. No caso de uma bond proxy, o câmbio de entrada importa muito, pois o custo do hedge cambial acaba comendo muito desse retorno.

Dessa forma, o encolhimento da indústria acionária local fez muito preço em setores de carrego, como utilities, infraestrutura. Por fim, vale ressaltar que são exatamente essas empresas que estão captando barato. Ou seja, ao comprar essas ações estamos nos beneficiando do custo de dívida barato e da capacidade de alocação de capital delas.

Correndo o risco de ser repetitiva: e quando e por que isso deve mudar? O mercado está em compasso de espera para negociar eleição?

100%! Não tem dinheiro de longo prazo, os investidores perderam a paciência. Estou no mercado desde 1998, e poucas vezes da minha vida, eu vi um grau de pessimismo tão grande como agora.

Hoje o prêmio de risco de equity está muito alto. A bolsa brasileira como um todo negocia hoje a 8x PL [preço/lucro]. É menos do que na época da Dilma, mas naquela época, e economia estava emburacando. Agora está subindo, com os lucros sendo revisados para cima.

A previsão de crescimento de lucro por ação da Bolsa é 15%. Se eu fechar o olho e abrir só no fim de 2025, que é o ano anterior a eleição eu ganhei esse 15% em troca do CDI, digamos de 12%. Hoje, desde que não haja uma compressão adicional de múltiplos, ou uma forte revisão de lucros, estou sendo pago para esperar.

No passado quando você comprava a um P/L baixo, se o avanço no lucro ficava no zero a zero, a ação derretia na mão pois ninguém queria abdicar do CDI. Hoje é melhor.

Em 2026, podemos ter uma mudança para um governo mais pró mercado e ver um re-rating grande ou uma continuidade da situação atual. Quanto temos para cair e quanto temos para subir em cada cenário? Se der tudo errado o PL vai cair quanto? De 8 vezes para 6? Nem a China negocia 6x PL.

Se tudo der certo, o P/L pode ir para 12 ou 14 vezes. A assimetria é muito grande, 20% a 30% para cair e 70% e 80% para subir.

Por fim, dentro da bolsa, a maior distorção que vejo são nas “bond proxies”. Elas têm quase o mesmo upside da bolsa com um risco muito menor. Elas estão em setores defensivos e conseguem ao longo do tempo repassar inflação e gerar caixa de forma sustentável.

O problema é que hoje, no Brasil, você não tem bolso de longo prazo. Ninguém consegue comprar e fechar o olho daqui até 2026. A verdade é que hoje eu, assim como outros gestores de ações, tenho muita ideia de investimento e pouco dinheiro disposto a entrar.

22.out.2024
Desancoragem de expectativas de inflação se acentua e impõe desafio ao BC

Desancoragem de expectativas de inflação se acentua e impõe desafio ao BC | Finanças | Valor Econômico

Medidas de taxa ‘implícita’ de dois anos têm aumentado de forma expressiva e se distanciam cada vez mais da meta de 3%

Por Gabriel Roca e Victor Rezende — De São Paulo

A despeito das apostas de que a Selic pode subir acima de 13%, a visão dos agentes financeiros para a inflação exibiu piora consistente nas últimas semanas e as projeções para o IPCA no Focus para o fim de 2024 já estão no teto da meta perseguida pelo Banco Central (BC). Monitorando os riscos fiscais, uma atividade econômica robusta, a depreciação cambial e os efeitos da seca, que podem gerar pressões mais acentuadas nos preços de alimentos, as medidas de inflação “implícita” extraídas dos títulos públicos (NTN-Bs) também dispararam recentemente e já são negociadas em torno de 5,70% para todos os prazos.

A piora nas expectativas de inflação é generalizada e tem ganhado força nas últimas semanas. No Boletim Focus divulgado ontem, a mediana das projeções para o IPCA no fim de 2024 saltou de 4,39% para 4,50% – exatamente o teto da meta perseguido pela autoridade monetária. Já as estimativas para a inflação em 2025 também subiram, de 3,96% para 3,99%.

Contudo, tem sido ainda mais relevante o movimento observado pela inflação “implícita” extraída das NTN-Bs (títulos públicos indexados ao IPCA). De acordo com a Truxt Investimentos, a inflação “implícita” de dois anos saltou de 4,56% das mínimas registradas em meados de agosto – pouco mais de dois meses atrás – para 5,76% no fim de sexta-feira.

E apesar do forte movimento no mercado de inflação, ainda há espaço para que as taxas continuem subindo, segundo profissionais de mercado consultados pela reportagem do Valor.

O gestor de renda fixa Vagner Alves, da Kinea Investimentos, afirma que, mesmo após o salto das últimas semanas, a gestora mantém posições compradas em inflação “implícita” de curto prazo – ou seja, aposta em uma alta adicional das taxas. “Já teve um bom movimento, mas a gente acha que ainda tem uma assimetria de alta por alguns motivos”, relata o gestor.

De acordo com ele, o fator mais importante para o movimento foi o choque observado recentemente nos preços do boi gordo. “Como a economia está forte e o mercado de trabalho está apertado, acreditamos que o repasse dessa alta do boi gordo para o consumidor vai ser elevado. Também vemos alta em outros preços de alimentos”, diz.

A segunda parte relevante da estratégia de compra das “implícitas” de curto prazo é a desvalorização recente do real. Alves explica que os Índices Gerais de Preços (IGPs) já começam a exibir aceleração e o IGP-DI no fim do mês pode ter avanço de quase 2%.

“Isso ainda está começando a bater nos preços do atacado e vai chegar de maneira mais relevante para o IPCA nos próximos seis meses. Não achamos que o repasse já tenha acontecido. E acaba valendo a mesma ideia do repasse dos alimentos: com uma economia aquecida, o repasse da desvalorização do câmbio acaba também sendo elevado”, afirma o gestor da Kinea.

Como os choques têm ocorrido no fim do ano, existe uma probabilidade grande de que a inércia inflacionária se traduza em reajustes maiores para o ano que vem, também nos itens ligados aos serviços. “O fato de terminar o ano com uma inflação acumulada em 12 meses mais alta, tanto no IPCA como no IGP, pode acabar fazendo com que haja surpresas nesses reajustes mais indexados à inflação. Basicamente, é a inércia da inflação atuando. Acreditamos que a inflação de aluguel irá surpreender para cima nos próximos seis a oito meses, além dos preços de condomínio e educação”, afirma Alves.

Na visão do gestor, a inflação deve terminar 2025 próxima dos 5% e as expectativas do Focus devem continuar a subir à frente, ainda que de forma mais lenta.

Guilherme Foureaux, sócio e gestor macro da Truxt, nota que há uma desancoragem muito grande da inflação “implícita” de dois anos à frente, muito acima do centro da meta, de 3%, mesmo com o início de um ciclo de aperto monetário. “Quando o BC optou pela elevação da Selic, o prêmio até chegou a cair um pouco, mas durou muito pouco tempo e já voltou a aumentar”, afirma. Para ele, os motivos estão associados tanto à inflação “cíclica”, que tem piorado recentemente, quanto a fatores de prazo mais longo, como a questão fiscal e a atividade econômica.

“A parte cíclica da inflação está piorando: os preços dos alimentos e de energia elétrica, que contribuem para o número ‘cheio’ estão subindo. É um aumento da inflação que não pode ser combatido só pelo BC, já que a desancoragem é de 2,7 pontos. Mas a inflação de curto prazo não tem muito a ver com a Selic, ela é mais cíclica e tivemos esse problema de energia e de seca; os preços das carnes vão subir muito no fim do ano etc. O problema é que estamos juntando a parte cíclica com uma mais estrutural.”

Na avaliação de Foureaux, a dinâmica da dívida e as pressões da taxa de câmbio têm gerado um aumento dos prêmios de risco fiscais, o que tem impulsionado para cima a inflação “implícita”. “Isso deixa a inflação de longo prazo bem desancorada e torna o trabalho do BC um pouco mais difícil”, diz.

O gestor nota que a precificação da curva de juros aponta para uma Selic entre 13,25% e 13,5% em meados do próximo ano e, mesmo assim, a inflação embutida nos preços dos ativos está muito elevada. “É um quebra-cabeça complicado para o BC resolver.”

Foureaux, inclusive, vê chance de uma alta adicional da inflação “implícita”, ao analisar que há componentes técnicos que podem influenciar os mercados. “O Tesouro tem optado por emitir LFTs, e não apenas títulos prefixados. Se o BC tiver de subir muito os juros, essa estratégia pode ser alterada, já que as LFTs teriam um impacto até mais direto no custo da dívida. Assim, se em algum momento o Tesouro emitir prefixados, seria natural ver a curva de juros com mais prêmio no médio e no longo prazo.”

No momento, a Truxt mantém no portfólio dos fundos macro posições compradas (aposta na alta) na inflação de curto prazo.

Da mesma forma, o chefe da área de renda fixa da Ace Capital, Luiz Alberto Basqueira, afirma que a gestora continua pessimista com o comportamento da inflação, de modo geral, mas reduziu recentemente as posições devido ao nível dos preços dos ativos. “Reduzimos as posições em implícitas como um todo e ‘alongamos’ um pouco. Os preços na parte curta estão mais consistentes com os riscos que vínhamos mapeando.”

A Ace também atribui boa parte do recente movimento da inflação “implícita” ao aumento expressivo nos preços do boi gordo. “Outras commodities também andaram recentemente, como as metálicas e algumas agrícolas, e o próprio câmbio tem se depreciado novamente. A carne do boi foi destaque, porém não foi o único fator de pressão. Mas concordamos que a parte de alimentação ainda continua sendo o principal risco e a maior fonte de pressão extra”, diz.

Basqueira vê riscos de o movimento observado nas “implícitas” ser seguido pelas projeções do Focus nas próximas semanas. A média das projeções do boletim para o IPCA em 2025 subiu de 4,00% para 4,04% nesta semana. Além disso, a mediana dos últimos cinco dias avançou de 3,94% para 4% e mesma medida para o IPCA de 2026 subiu de 3,60% para 3,70%.

“A variação dos preços correntes, o comportamento das ‘implícitas’ e outras métricas do Focus levam a crer que as projeções para o IPCA vão continuar subindo. Tudo isso deve dificultar a vida do BC e devemos continuar vendo o mercado, aos poucos, revisando a Selic no fim do ciclo para cima”, afirma.

A Ace, neste momento, tem uma projeção de Selic em 12,5% no fim do ciclo, com viés de alta. “Ainda temos algumas posições tomadas [que apostam na alta] dos juros futuros dado o nosso viés para o fiscal e com um cenário externo que se mostra mais desafiador”, diz.

04.jul.2023
Otimismo local derruba juros futuros à mínima desde 2021 – Valor, 04 de julho de 2023

Otimismo local derruba juros futuros à mínima desde 2021 | Finanças | Valor Econômico (globo.com)

Taxas de médio prazo caem abaixo de 10% e mercado precifica chance majoritária de um corte de 0,5 ponto na Selic em agosto

Por Victor Rezende e Augusto Decker — De São Paulo

Com a porta aberta para o início do ciclo de flexibilização da Selic, o mercado já embute nos preços um cenário expressivo de cortes de juros à frente. O gatilho positivo exercido pela manutenção das metas de inflação em 3% se somou ao ajuste baixista nas expectativas de inflação no Focus e levou as taxas futuras às mínimas do ano. Em alguns vencimentos, inclusive, os juros ficaram abaixo de 10%, o que não acontecia desde 2021. O ambiente construtivo, assim, levou o mercado a precificar chance majoritária de corte de 0,5 ponto na Selic já em agosto, o que deu apoio ao Ibovespa, que se aproximou novamente dos 120 mil pontos.

O mercado de juros já sustentava tendência baixista nos últimos meses, mas a manutenção da meta de inflação em 3% – cuja decisão se deu na última quinta-feira – proporcionou três pregões consecutivos de forte queda das taxas futuras. Os investidores, assim, começam a se preparar para o ciclo de flexibilização monetária que deve ter início em agosto.

A precificação dos próximos passos do Copom na curva de juros impressiona. O mercado atribui cerca de 70% de chance à possibilidade de uma redução de 0,5 ponto na Selic em agosto e precifica uma taxa em torno de 11,5% no fim deste ano e de 8,5% em 2024.

Os agentes já aguardavam alguma queda nas expectativas de inflação após a manutenção da meta em 3%. O movimento visto no Focus ontem, porém, agradou e permitiu um bom desempenho dos ativos. Os economistas de mercado derrubaram a projeção para o IPCA de 2025 de 3,80% para 3,60%, enquanto a mediana das estimativas para a inflação de 2026 caiu de 3,72% para 3,50%. Além disso, a expectativa para a Selic no fim deste ano passou de 12,25% para 12%.

“O mercado está reduzindo a expectativa para a Selic no Focus, ao mesmo tempo em que a expectativa de inflação cai; o câmbio aprecia e a curva não fica mais inclinada. Os juros longos não estão se comportando pior que os curtos. É como se o mercado dissesse que o corte é responsável e que o BC não está fazendo algo errado”, avalia Guilherme Foureaux, sócio e gestor macro da Truxt Investimentos.

Nesse sentido, embora a gestora espere, em seu cenário básico, um corte de 0,25 ponto na Selic em agosto, uma redução de 0,5 ponto não pode ser descartada. “Se a inflação no horizonte relevante cair mais rapidamente do que a Selic continuará sendo um aperto. Se a melhora for muito forte, como nas últimas semanas, um corte de 0,5 ponto se encaixa num ritmo ‘parcimonioso’”, defende Foureaux.

É um cenário semelhante ao defendido pelos economistas do Banco Safra, que projetam um corte de 0,5 ponto nos juros em agosto. “Dado o tanto em território restritivo em que a Selic se encontra atualmente, prevemos redução da taxa básica de juros em 0,5 ponto na próxima reunião, o que facilitaria cortes de igual magnitude nas reuniões subsequentes, até que a taxa Selic atinja 8,75% no terceiro trimestre de 2024”, afirmam os economistas do banco em relatório semanal enviado a clientes.

Para Foureaux, da Truxt, a discussão sobre o tamanho do primeiro corte nos juros tem importância menor no momento. A gestora, inclusive, está alocada em ativos brasileiros por acreditar que, mesmo com a melhora recente nos mercados domésticos, houve progresso nos fundamentos. “O país ganhou credibilidade após a decisão do CMN, que foi correta e acertada. Os preços dos ativos refletem essa melhora nos fundamentos, e não uma especulação”, afirma.

Mesmo em prazos mais longos, os juros futuros testaram as mínimas do ano e operaram abaixo do nível psicologicamente importante de 10%. A taxa do DI para janeiro de 2026 caiu de 10,09% para 9,945%, enquanto a do DI para janeiro de 2027 recuou de 10,115% para 9,965%. Já na renda variável, o Ibovespa fechou em alta de 1,34%, aos 119.673 pontos. O dólar, porém, destoou dos demais e fechou em alta de 0,39%, a R$ 4,8078.

O cenário mais positivo dos ativos brasileiros também foi capturado pela BlueLine Asset, que mantém algumas posições mais construtivas no mercado doméstico. “No começo do ano não tínhamos um arcabouço fiscal e não tínhamos certeza sobre o arcabouço monetário. Isso gerava muita imprevisibilidade. Agora a parte fiscal está se consolidando, embora não seja tão rígida quanto o teto, e temos previsibilidade em relação à inflação. Isso é extremamente positivo. A confirmação da meta em 3% justifica uma melhora adicional nos preços”, avalia Gustavo Brotto, sócio e gestor da BlueLine.

“O câmbio está operando super bem, até por causa do cenário global mais favorável; o mercado acionário pode começar a trabalhar com juros mais baixos, o que aumenta o ‘valuation’ das ações; e, quando olhamos a renda fixa, o nível dos juros está muito alto e permite ao BC iniciar um ciclo de forma cautelosa”, diz Brotto. A BlueLine projeta um corte de 0,25 ponto na Selic em agosto e vê uma aceleração do movimento para 0,5 ponto nas outras decisões do ano.

Ao ver um cenário também bastante cauteloso do BC na condução da política monetária, Clayton Calixto, especialista de portfólio da Santander Asset Management, acredita que a curva de juros “já andou muito”, especialmente após a intensificação da queda das taxas desde a semana passada. “Não vemos prêmio na parte curta da curva”, diz o profissional, ao destacar o cenário da casa de um ciclo de cortes mais cauteloso, com uma taxa de 12% em dezembro.

Calixto diz ver um momento de “euforia” nos juros de curto prazo, mas ressalta que o movimento não é apenas no Brasil e que é normal que os agentes “superestimem” os ciclos de redução de juros em seu início. “Vemos muito mais cortes precificados na curva do que os bancos centrais estão dispostos a entregar e esse não é um fenômeno apenas do Brasil, mas em outros emergentes”, nota o profissional ao citar as curvas de juros do Chile, do México e da Hungria.

Neste momento, a Santander Asset revela ter posições aplicadas – que são as que apostam na queda das taxas – em juros de prazo intermediário, de cerca de três anos, e não tem exposição no momento a juros reais (NTN-Bs). (Colaboraram Matheus Prado e Arthur Cagliari)

05.jun.2023
Otimismo com ativos brasileiros ganha força – Valor, 05 de junho de 2023

Otimismo com ativos brasileiros ganha força | Finanças | Valor Econômico (globo.com)

PIB e cenário de desinflação dão impulso a visão mais positiva para câmbio, juros e bolsa

Por Victor Rezende, Gabriel Roca e Matheus Prado — De São Paulo

O otimismo tomou conta do mercado doméstico nos últimos dias. A sensação de que o crescimento econômico será mais forte que o esperado e uma dinâmica favorável do lado da inflação, já que a agropecuária foi a grande força no primeiro trimestre, deram a senha que faltava para uma nova onda positiva guiar os ativos financeiros brasileiros e sustentar apostas mais construtivas no curto prazo no câmbio, nos mercados de juros e também no Ibovespa. Antes disso, o arcabouço fiscal tinha dado sua contribuição nas últimas semanas, ajudando a reduzir riscos.

Com esse cenário em mãos, foi possível observar o termo “Goldilocks” se espalhar em algumas análises no mercado na sexta-feira. “Goldilocks” (inspirado no clássico infantil “Cachinhos Dourados”) se refere a um ambiente no qual a economia mantém um crescimento sustentável, não há pressões inflacionárias e a taxa de desemprego é baixa. Como consequência, ao menos no curto prazo, a aposta entre participantes do mercado é de um bom desempenho dos ativos brasileiros. Não por acaso, nas sessões de quinta e sexta-feira, o câmbio se apreciou, com o dólar novamente abaixo de R$ 5; os juros de longo prazo caíram; e a bolsa subiu.

“O resultado final do PIB confirma essa teoria de ‘Goldilocks’: o consumo doméstico e os setores sensíveis à política monetária estão desacelerando, o que é positivo para a inflação. E esses setores vão reagir quando as taxas caírem”, diz o responsável pela área de mercados da tesouraria do Santander Brasil, Sandro Mazerino Sobral, em relatório a clientes.

Ele nota que a história dos ativos da América Latina tem sido “a melhor do ano” e que um dos motivos é, justamente, o nível dos juros na região. “No Brasil, a história é a mesma, mas temos outros ingredientes”, diz Sobral, ao apontar o fato de os ativos domésticos se saírem melhor recentemente. O sistema bancário bem capitalizado; o impacto das reformas estruturais implementadas desde 2016; e o poder do agronegócio e sua capacidade de disseminar o crescimento pelo consumo e pelos investimentos são os elementos listados pelo executivo ao defender um otimismo maior com o Brasil.

“Parte substancial da descompressão de prêmios de risco já terminou, o que significa que o mercado exigirá, gradativamente, dados sólidos para continuar a melhorar. Por outro lado, uma das minhas principais teorias sobre nossa visão positiva do Brasil se confirmou: o clima está mudando”, enfatiza Sobral.

Visão semelhante é defendida por Guilherme Foureaux, sócio e gestor macro da Truxt Investimentos, ao afirmar que tem uma visão positiva para os ativos brasileiros e avaliar que ainda há uma “boa janela” para que os de risco se recuperem, em especial no mercado de juros. “Não concordamos com a visão de que já temos muitos cortes de juros precificado”, diz. “Os fundamentos econômicos apontam para um corte de juros e o Banco Central vai dar início a um ciclo de forma responsável. Não será um afrouxamento monetário, mas um ajuste no nível de aperto.”

Foureaux defende que não é preciso trabalhar com juros reais em níveis tão elevados no momento. “Ainda existe uma preocupação fiscal, mas o arcabouço excluiu o risco de cauda. Um ciclo de ajuste do aperto monetário ainda não está totalmente precificado. Gostamos dos juros nominais e dos juros reais e temos posições menores no real e na bolsa”, diz.

“Estamos em um cenário que, lá fora, costuma ser chamado de Goldilocks. Tudo que está acontecendo está favorecendo o Brasil a ter menos juros, mais crescimento e uma inflação controlada. É a combinação perfeita para os ativos de risco terem uma boa performance, principalmente quando olhamos para os preços dos ativos, que estavam ‘amassados’ [desvalorizados]”, diz. Com o nível alto de juro real, a gestora espera que o ciclo de cortes na Selic comece em agosto ou setembro.

31.out.2022
Tovar, da Truxt: “Lula precisa apresentar o ministro da Economia o mais rápido possível” – Pipeline Valor, 30 de outubro de 2022

Tovar, da Truxt: “Lula precisa apresentar o ministro da Economia o mais rápido possível” | Mercado | pipelinevalor (globo.com)

Definição da linha econômica e relacionamento com Congresso darão o tom do novo governo

Por Maria Luíza Filgueiras — São Paulo

Luiz Inácio Lula da Silva venceu uma acirradíssima eleição presidencial, voltando ao poder para seu terceiro mandato e marcando a derrota do atual presidente Jair Bolsonaro – o primeiro a não ser reeleito desde que essa possibilidade existe na democracia brasileira. No mercado financeiro, os ajustes de preços já vinham se pautando nas pesquisas eleitorais e no resultado do primeiro turno, mas ainda haverá volatilidade até que o político eleito abra finalmente o jogo sobre a linha econômica que vai seguir.

À frente de uma das maiores gestoras independentes do país, José Tovar, CEO da Truxt, conversou há pouco com o Pipeline sobre sua leitura deste domingo e do que está por vir.

Economia

“Hoje o Lula comemora a vitória e o mais rápido possível precisa apresentar o ministro da Economia e com isso sua política fiscal, que é o mais importante. Ambas as campanhas foram muito pouco esclarecedoras sobre o que os candidatos fariam na economia. Foram platitudes, conjuntos de promessas como isenção de IR, aumento de salário mínimo, quando sabemos que o budget é limitado.

O que temos ouvido é que ele viria com um ministro mais na linha política, de negociação, e montaria um time econômico embaixo desse ministro. Mas, diante de tanta pressão, não sabemos se é isso que ele vai fazer. Os nomes especulados são conhecidos, mas a decisão é do Lula e espero que ele a tome muito em breve, já que não tem mais o risco eleitoral e não tem porque adiar isso.”

Mercado

“A eleição do Lula não foi uma surpresa. Amanhã, na abertura do mercado, o que vai influenciar é se dólar abre forte no mundo, como abrem as bolsas internacionais. Não acho que haverá cavalo de pau nenhum no mercado local, mas um ajuste final conforme o vencedor e ainda com essa especulação grande sobre quem vai ser ministro da Fazenda.”

Congresso

“Lula pega um Congresso mais hostil. O resultado da eleição do Congresso foi muito mais para o Centro-Direita e bancada bolsonarista. Lula vai ter que usar sua habilidade e capital político para influir na presidência da Câmara. É um cargo estratégico. O que mudou no Brasil é que hoje o Congresso detém o controle do orçamento e está numa posição muito privilegiada, que nunca teve. Foi durante o governo Bolsonaro que o Congresso assumiu o controle do orçamento e não vai ser simples.

Mas Lula é habilidoso, vamos ver como lidará com isso. Vai ter forças contrárias, como os caminhoneiros, agronegócio, os evangélicos. Mas ele já se mostrou um político resiliente, ganhou a eleição contra o incumbente, o que é difícil no Brasil com o incumbente com mais recursos. Claramente foi uma eleição definida pela rejeição.”

Transição

“Já está se desenhando uma transição harmônica de poder. Não digo colaborativa, mas pacífica. Em poucas horas, os líderes internacionais já se manifestaram, o ministro do TSE, o presidente da Câmara, e me parece que esse ritmo de respeito à democracia vai permanecer. Havia um medo em relação a isso, mas o establishment já mostrou seu compromisso com a democracia.”

Tovar lembra que, em relação ao povo brasileiro, o político também encara um desafio, mesmo já eleito. “A eleição foi muito apertada. O país sai muito dividido dessa eleição e Lula vai ter que usar a habilidade política dele para acalmar o país.”

04.ago.2022
‘BC sinaliza alta de 0,25 ponto, mas com desejo de parar’, diz Truxt – Valor, 04 de agosto de 2022

‘BC sinaliza alta de 0,25 ponto, mas com desejo de parar’, diz Truxt | Finanças | Valor Econômico (globo.com)

Para Arthur Carvalho, da Truxt, Copom manteve porta aberta para mais uma alta, mas deixou possibilidade de, caso dados melhorem, encerrar ciclo com o juro nos atuais 13,75%

Por Lucinda Pinto — De São Paulo

Ao comunicar sua decisão de subir a Selic em 0,5 ponto percentual, o Copom manteve a porta aberta para mais uma dose de alta, agora de 0,25 ponto percentual. Mas deixou na mesa a possibilidade de, caso os dados melhorem, encerrar o ciclo com o juro nos atuais 13,75%, porque teme que o efeito defasado da política monetária tenha um impacto forte demais daqui para frente. Essa é a leitura do economista-chefe da Truxt Investimentos, Arthur Carvalho. “Parece que a porta está aberta, mas que o desejo é de parar”, afirma.

Para ele, ao expressar esse desejo, o BC está demonstrando menos preocupação com a piora das expectativas de inflação e também com a dinâmica da inflação subjacente, principalmente no setor de serviços, que segue muito resistente. “Desacelerar inflação de serviços demora, é custoso. E ele já está parecendo que, se der um sinal [positivo da inflação], ele para”, diz

O cenário base do economista é de que o BC suba o juro em mais 0,25 ponto e pare. “Mas eu acho que o cenário de 14,25% é bem próximo”, diz. Para o IPCA, sua projeção é de uma taxa de 7% neste ano e de 5,3% para 2023.

Veja, a seguir, os principais pontos da entrevista:

Valor: Qual foi a mensagem do comunicado do Copom?

Arthur Carvalho: O Copom deixou a porta aberta para subir mais uma [vez]. Ao mesmo tempo em que ele se protegeu um pouco, quase que num desejo de que ele possa parar, ao dizer que o ciclo está muito avançado, de que ele vai reagir aos dados. Ele sinalizou que, se o cenário continuar assim, ele pode subir o juro em mais 0,25 ponto, mas, se melhorar, ele para. Parece que a porta está aberta, mas que o desejo é de parar. Talvez não fosse o que eu faria, eu sinalizaria mais uma alta de 0,25 e não expressaria esse desejo de, se puder parar, porque mostraria um comprometimento maior em ancorar as expectativas.

Valor: Por que o BC tem o desejo de parar o ciclo? Há uma preocupação com o efeito da alta que já foi realizada?

Carvalho: Acho que ele acha que já subiu muito, e subiu rápido. E como a política monetária é muito defasada, ele está com medo disso bater muito forte. Se não tivesse os estímulos fiscais, que teremos agora em agosto, setembro e outubro, esse receio seria válido. Mas, diante desse estímulo, acho que isso parece mesmo mais um desejo.

Valor: Quando o Copom expressa que deseja parar, ele enfraquece o efeito da comunicação sobre as expectativas?

Carvalho: Eu acho que, na margem, sim. Não é dramático, como se anulasse, mas mostra que ele quer parar, que ele está forçado a continuar o ciclo. E mostra um pouco menos de preocupação. Eu acho que, dado que as expectativas estão se movendo ainda, o BC deveria estar mais preocupado. E ao expressar esse desejo, ele parece estar menos preocupado do que eu estou.

Valor: A sua preocupação reside em que exatamente, à surpresa da inflação vinda da resiliência da atividade? Ou tem mais a ver com o fiscal?

Carvalho: É uma combinação das duas coisas. O primeiro semestre foi bem mais forte [em atividade] e ainda mostra algum fôlego no terceiro trimestre. E, em cima disso, você ainda vai ter o estímulo fiscal. Quando você olha para os indicadores subjacentes de inflação, alguns começaram a ceder, mas a maioria está próxima do ‘high’. Óbvio que não precisa esperar a inflação cair toda, senão você estará apertando demais. Mas ainda tem sinalizações de que a inflação pode se manter elevada por um período prolongado. A inflação de serviços piorou muito e desacelerar inflação de serviços demora, é custoso. E já está parecendo  que, se der um sinal [positivo da inflação], ele para. Ele mostra menos preocupação.

Valor: A resiliência da atividade pode refletir que a política monetária está menos efetiva?

Carvalho: Não, acho que nisso vou dar crédito ao governo. Quando você olha 2014 e 2015, quando teve um ciclo de alta relevante, a política monetária era muito menos efetiva porque tinha crédito subsidiado para todos os lados. Acho que o problema não é esse. Acho que essa resiliência tem a ver com o fato de que o mercado subestimou o efeito da reabertura da economia, principalmente sobre o setor de serviços. Foi mais importante a última onda ter acabado e a vida normal ter voltado para o setor de serviços do que parecia para a gente. E isso criou um ‘momentum’ positivo para a economia, uma inércia. E a outra coisa são os estímulos. E agora vai entrar mais auxílio. Mas não é como crédito subsidiado, que entrava direto na política monetária.

Valor: Existe a chance de o BC ter que ir ainda mais longe com o ciclo do que ele sinalizou?

Carvalho: Eu acho que sim, tem esse risco. É super real o risco de, ao chegar em setembro, a economia não tenha desaquecido, a inflação não tenha cedido, as expectativas continuem desancorando, e ele tenha que, mais uma vez, repetir o ‘statement’ de hoje [ontem]. A única diferença é que ele diria que faria uma magnitude igual ou menor, e ter que deixar a porta aberta mais uma vez. Lembre-se que este Banco Central já chegou a sinalizar que iria parar esse ciclo, e acabou dando 2 pontos acima. A história deles [do comitê] é que, quando chega na hora H, se os dados não deixarem, eles reagem, mas com essa hesitação.

Valor: Qual é o seu cenário base para o juro?

Carvalho: Que o BC suba o juro em mais 0,25 ponto e pare. Mas eu acho que o cenário de 14,25% é bem próximo. É muito mais possível, na minha cabeça, do que o cenário de 13,75%.

12.maio.2022
Mercado vê Selic alta durante mais tempo – Valor, 12 de maio de 2022

Mercado vê Selic alta durante mais tempo | Finanças | Valor Econômico (globo.com)

Expectativas para o IPCA voltam a aumentar em 2022 e 2023

Por Victor Rezende, Marcelo Osakabe e Felipe Saturnino — De São Paulo

O processo de deterioração das expectativas de inflação continua a todo vapor e mostra que o caminho para a política monetária será árduo e exigirá uma taxa de juros que se mantém em níveis elevados por período prolongado. Se antes da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central pesquisa do Valor com projeções de economistas indicava um IPCA de 7,7% neste ano e de 4% em 2023, agora a mediana das 80 projeções coletadas aponta para o índice de preços em 8,4% em 2022 e em 4,2% no próximo ano.

O resultado foi obtido em novo levantamento, feito pelo Valor ontem, logo após a divulgação da leitura de abril do IPCA. E, desta vez, o cenário para a política monetária se mostrou ainda mais restritivo à frente. Embora os economistas continuem a esperar a Selic em 13,25% no fim do ciclo, previsto para junho, o ponto médio das estimativas agora aponta para o juro básico em 9,5% no fim de 2023, e não mais em 9%. O cenário, portanto, se desenha com taxas em níveis bastante restritivos e por um período cada vez mais longo.

Aos poucos, as taxas de juros dos contratos de DI têm se ajustado a esse ambiente. Ontem, na esteira do IPCA de abril em 1,06%, número ligeiramente acima do esperado, e da inflação também mais pressionada nos Estados Unidos, a taxa do contrato de DI para janeiro de 2023 subiu de 13,255% para 13,325%, enquanto a do DI para janeiro de 2024 saltou de 12,865% para 13,025% no fechamento.

“Está quase virando um ato de fé esperar a desaceleração da inflação”, diz a economista-chefe da Panamby Capital, Tatiana Pinheiro, que projeta o IPCA em 9% no fim deste ano e em 5,3% em 2023. “Estamos esperando isso desde janeiro e até agora não aconteceu. Não dá para falar que a inflação não pode ser ainda mais alta. A maior probabilidade é que ela fique abaixo da inflação de 2021, de 10,1%, até porque temos um ciclo gigante de aperto monetário, mas não vai ser super abaixo.”

Pinheiro observa que o Banco Central, desde o início do ano, tem dado sinais de que deseja encerrar o ciclo de elevação da Selic diante dos níveis elevados da taxa básica de juros no momento. “Mas a inflação não dá brecha para que esse fim de ciclo chegue e, pelas projeções à frente, não vai dar tão cedo”, afirma. A economista da Panamby projeta a Selic em 13,25% no fim do ciclo, ao esperar mais um aumento de 0,5 ponto na taxa em junho.

Ela, contudo, não descarta que o BC tenha que estender ainda mais o ciclo de elevação dos juros e avalia que o consenso pode migrar para projeções cada vez mais altas para a Selic no fim de 2023. Pinheiro espera que o juro básico comece a ser reduzido no próximo ano, mas em um ritmo bem mais lento. Enquanto o consenso aponta para a Selic em 9,5% em dezembro de 2023, a economista projeta a taxa em 11%.

Estimativa semelhante é adotada na Truxt Investimentos, com a Selic em 11% no fim do próximo ano, na medida em que a qualidade “excepcionalmente ruim” da inflação coloca o BC em uma situação complicada, aponta o economista-chefe da gestora, Arthur Carvalho.

“Sou simpático ao argumento da autoridade monetária de que muito já foi feito em termos de juros e que é preciso ver o efeito dessa alta na segunda metade do ano. Por isso, entendo que o Copom vai encerrar o ciclo em 13,25%. Só que, como isso não é suficiente para trazer a inflação de volta à meta ano que vem, eles precisarão carregar esse nível por mais algum tempo e só conseguirão começar a cortar a Selic em meados de 2023”, afirma.

O economista da Truxt se mostra mais preocupado, no momento, com a disseminação da alta de preços na economia, e não com o nível em que a inflação está. Em abril, a difusão do IPCA avançou para 78,2%, maior patamar desde janeiro de 2003. “Sabemos que a inflação de hoje ocorre por conta de choques como o de energia, mas os efeitos secundários que vemos hoje são de choques que já aconteceram. Ainda não estamos contabilizando os choques que ocorrem neste momento”, diz.

No levantameno feito pelo Valor ontem, embora a mediana das 83 estimativas coletadas para a Selic no fim do ciclo indique a taxa em 13,25%, é preciso apontar que uma ala do mercado vê o juro básico em 13,75% ou mais no fim do ciclo, com uma extensão do aperto monetário para a reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC.

A situação peculiar da inflação, que se mostra “bastante rígida”, levou o Fator a esperar que a Selic chegue a 14% no fim do ciclo, revela o economista-chefe do banco, José Francisco de Lima Gonçalves. “Acho que o BC está mais disposto a não parar o aperto em junho. Na ata anterior, o sinal era de desaceleração; a ata de ontem [terça-feira] sinaliza que ele vai andar mais no processo de aperto”, diz.

Para ele, por mais que o BC aponte que não há um viés, “tem uma tendência de adaptação”. O economista, inclusive, nota que o colegiado tem se adaptado às surpresas inflacionárias “e imagino que vão se adaptar mais uma vez”.

O Fator, inclusive, projeta uma inflação bastante pressionada, de 9,5% neste ano, e de 5,2% em 2023, ao observar que a taxa de câmbio deve se depreciar diante de um cenário mais restritivo para as condições financeiras globais, o que pode levar a novos aumentos no diesel, na gasolina e no gás. “Os serviços também seguem altos. Então, temos esses vieses de inflação para cima e eu não consigo ver a economia fraca ajudar tanto a inflação a ficar mais baixa”, afirma.

O economista-chefe da Daycoval Asset, Rafael Cardoso, dá ênfase, em especial, a diferenças entre o atual ciclo e a elevação de juros vista em 2015 e 2016. “Lá, o mercado de trabalho mostrava sinais de fraqueza. Agora, vemos um mercado de trabalho que ainda não apresenta esses sinais. Da ótica inflacionária, a percepção é de uma inflação mais alta e justamente de uma parte conhecida por ter um caráter mais inercial.”

Cardoso pontua que a inflação de serviços deve desacelerar quando a atividade econômica arrefecer, já que o mercado de trabalho tende a ficar menos aquecido nesse cenário. “Mas se a política monetária está com juros lá em cima e o governo mantém a demanda mais aquecida, isso faz a inflação de serviços ganhar fôlego extra devido a esse impulso extra na demanda”, diz o economista, para quem o IPCA deve ficar em 7,9% neste ano, com a Selic em 13,25% no fim do ciclo e em 9,5% no fim de 2023.

Na avaliação do economista Helcio Takeda, da consultoria Pezco, os problemas do lado da produção, que dominaram as preocupações em 2021 e no começo deste ano, transbordaram e agora também são visíveis no setor de serviços, cuja inflação já roda perto de 7% em 12 meses.

“Os efeitos secundários das altas dos [preços] administrados devem continuar contaminando a inflação ainda em 2023”, diz Takeda, que projeta o IPCA do próximo ano em 5,1%, acima do teto da meta (4,75%). O economista lembra que, no processo de desinflação de 2016 e 2017, a dinâmica dos preços demorou para melhorar mesmo diante de uma recessão severa. “Como a perspectiva para a atividade esse ano é melhor, isso aumenta o desafio do BC de fazer a inflação voltar à meta”, observa o profissional.

04.maio.2022
Copom deixa porta aberta para continuar subindo juros e mercado se divide sobre até onde a Selic vai – InfoMoney, 4 de maio de 2022

Copom deixa porta aberta para continuar subindo juros e mercado se divide sobre até onde a Selic vai – InfoMoney

Por Mitchel Diniz

Autoridade monetária sinaliza com mais uma elevação em junho, mas não indicou desfecho para o ciclo de aperto monetário

O desejo de encerrar o ciclo de aperto monetário em maio chegou a ser expressado de forma enfática pelo próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Mas a mensagem do Comitê de Política Monetária (Copom), no comunicado que acompanhou sua última decisão, frustrou essa expectativa, apontando para uma nova alta da Selic em um próximo encontro. Ou seriam novas altas?

“A comunicação tentou se desamarrar de um compromisso com uma taxa a frente e se amarrar com um compromisso de trazer a inflação de volta à meta e garantir ancoragem de expectativas ao redor da meta”, afirmou Mariana Dreux, gestora da Truxt Investimentos, durante live do InfoMoney.

A decisão da reunião, em si, não surpreendeu, justamente porque cumpriu com o que havia sinalizado no encontro anterior. O Copom elevou os juros básicos da economia em 1 ponto percentual, para 12,75% ao ano, a maior taxa em mais de cinco anos. Algumas casas acreditavam que o ajuste desta reunião de maio seria o último e até previam uma redução de juros ainda 2022.

“Por tudo o que está sendo expressado pelo Copom, por todo o cenário externo e interno, não vejo essa possibilidade muito prática para o BC este ano”, afirma Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

No texto do comunicado que acompanhou a decisão, o Copom afirmou que o ambiente externo seguiu se deteriorando e as pressões inflacionárias decorrentes da pandemia se intensificaram, com uma nova onda de Covid-19 na China. A elevação de juros em economias desenvolvidas aumentam as incertezas e geram volatilidade adicional para os países emergentes.

“A inflação ao consumidor seguiu surpreendendo negativamente. Essa surpresa ocorreu tanto nos componentes mais voláteis como nos itens associados à inflação subjacente”, diz o texto. Com essa justificativa, a autoridade monetária apontou para um novo ajuste, em menor magnitude, na próxima reunião do Comitê, marcada para os dias 14 e 15 de junho.

“O tom do Copom foi até mais hawkish que o mercado esperava. Ele não sinalizou ajustes apenas na próxima reunião, deixou as portas para ir além, ao dizer que o Comitê vai perseverar em sua estratégia até que se consolide o processo de desinflação e a ancoragem de expectativa em torno de suas metas”, afirma Cruz. Ele aposta em uma alta de 0,5 ponto em junho, com chances de encerrar o ciclo de aperto monetário em 13,25%. “Mas é preciso observar a ata da reunião, para ver se há o risco de ir além”.

Mercado dividido após decisão

A XP não esperava que as altas da Selic terminassem agora e apostava numa taxa de 13,75% ao final do ciclo de aperto, projeção que, por enquanto, foi mantida. Caio Megale, economista-chefe da casa, acredita que poderá haver mais dois ajustes de 0,5 ponto ou até mesmo uma outra alta de 1 ponto percentual na próxima reunião.

“A atividade econômica está até mais forte do que se imaginava, então existe demanda final para se repassar preços, já que os custos de produção continuam em alta. A projeção da XP para inflação este ano é de alta de 7,40%, mas vemos riscos de chegar até 9% facilmente”, afirma Megale. As projeções de inflação do Copom, atualmente, situam-se em 7,3% para 2022 e 3,4% para 2023.

Os cenários do Copom têm sido bem mais otimistas do que os traçados pelo BNP Paribas. O banco espera 10% de inflação para 2022 e 5% para inflação de 2023. “Olhando para nossa persistência de inflação um pouco maior, acreditamos que o BC vai ter que fazer um pouco mais do que o comunicado mostrou”, afirma Laiz Carvalho, economista para Brasil do BNP.

Já Luca Mercadante, economista da Rio Bravo, observa que, no comunicado, o BC não avaliou o balanço de riscos como altista. “Desta vez, preferiram ressaltar a volatilidade do balanço, indicando que podemos estar próximos do final do ciclo”, afirma. A Rio Bravo prevê que o Copom faça um último ajuste na Selic, na reunião de junho, elevando à taxa para 13,25%.

Essa também é a aposta da Necton e da Kínitro Capital. “A questão se centra na dinâmica inflacionária; se de fato a inflação no Brasil começar a recuar em 12 meses, já em maio teremos uma boa chance da curva de juros por aqui recuar”, diz André Perfeito, economista-chefe da Necton.

“Ainda existe uma chance desse incremento adicional de juros não acontecer na reunião de junho, caso ocorra uma surpresa para baixo de inflação. Mas acreditamos que esse cenário detém menor probabilidade”, afirma Sávio Barbosa, economista-chefe da Kínitro Capital.

Carla Argenta, da CM Capital, acredita que o Brasil terá uma taxa de juros acima de 13% daqui a 45 dias, quando o Copom se reunir novamente. A depender do desenrolar do cenário internacional, os ajustes podem não parar por aí.

“Vale lembrar que essa taxa de juros não tem mais impacto sobre a inflação de 2022, ela está mirando na inflação de 2023. Para o BC esse controle é extremamente necessário, uma vez que a inflação de 2021 já ficou muito acima do limite superior da meta e o mesmo deve acontecer em 2022. É importante para que a instituição mantenha a sua credibilidade”, conclui.